Nada Tanto Assim | Kid Abelha

Só tenho tempo pras manchetes no metrô 
E o que acontece na novela 
Alguém me conta no corredor 
Escolho os filmes que eu não vejo no elevador 
Pelas estrelas que eu encontro 
Na crítica do leitor
Eu tenho pressa 
E tanta coisa me interessa 
Mas nada tanto assim

Eu tenho pressa 
E tanta coisa me interessa 
Mas nada tanto assim 
Só me concentro em apostilas
Coisa tão normal 
Leio os roteiros de viagem 
Enquanto rola o comercial
Conheço quase o mundo inteiro por cartão postal 
Eu sei de quase tudo um pouco e quase tudo mal

Eu tenho pressa 
E tanta coisa me interessa 
Mas nada tanto assim
Eu tenho pressa 
E tanta coisa me interessa

Composição: Bruno Fortunato / Leoni

Chorar de Rir é Muito Bom

image

Chorar de Rir

Estou dando um tempo de ver TV. A tempos poucas coisas me interessam além de filmes e séries, mas atualmente nem isso.

Resultado: fugi para o Youtube, Pinterest, Instagram… Ou seja, redes sociais que escolho o que ver e quando.

Videos de bebês sorrindo, gatinhos fazendo gatices, cachorrinhos (baby dogs mesmo) aprendendo a viver, bobaginhas que me fazem sorrir…

Sou sorridente, mas dou raríssimas gargalhadas. Chorar de rir então?! Pffffff…

Fiz a foto deste post ontem à noite, já em minha cama, após gargalhar muito, de chorar, assistindo vídeos bobos.

Ou seja, não é impossível.

De vez em quando é bom demais desligar a seriedade e ligar o modo bobo da vida.

Chorar de rir é bom demais.

Arrival | Muito além do Estilo Sci-Fi

Só recentemente assisti o filme Arrival (A Chegada). E o que dizer… Caramba!

arrival-A-Chegada_escrevendo-na-parede

Terminei de assistir o filme leve, reflexiva, fascinada, emocionada e fazendo um enorme contraponto com as nossas vidas. Sobre o tempo (num sentido não linear), a dificuldade humana de se comunicar (entre si, entre os povos, entre e sobre o que se conhece e desconhece), mas sobretudo… Sobre o que realmente vale a pena ser vivido, falado, compartilhado e seus porquês, a ponto de influenciar ou mudar a vida de cada um.

Não quero falar muito, mesmo com o filme já tendo passado a tanto tempo, resolvi compartilhar a crítica de Otávio Ugá, o cara do Canal do Youtube Super8.

Deixe seus comentários. Vou amar!

PS. Amo a maneira simples e clara que o Otávio comenta os filmes, portanto, se você também gostar, inscreva-se no canal e não deixa de curtir o vídeo. Indico a ótima crítica do Live Action de A Bela e a Fera, me acabei de rir, mas super faz sentido suas considerações.

Quando um bichinho morre | Texto de Alessandro Martins

Antes de postar o texto do Alessandro martins, quero lembrá-los… O Alessandro escreve por prazer, mas este prazer envolve um custo de tempo, pesquisa, dedicação e inspiração. Ao final de seus textos ele costuma colocar um lembrete, das maneiras possíveis de continuar esse trabalho que nos entretém, faz refletir, rir, chorar, sonhar… Achei válido colocar este lembrete no início, ao invéns das minhas considerações, pois acho que os textos do cara fazem diferença.

Marley_e_Eu-Despedida

Despedida – Cena do filme Marley e Eu

Trotski morreu.

É um dos gatos de minhas duas amigas.

Confesso que não sou dos que ficam sentidos quando um animal morre, mesmo se tratando de um animal do meu convívio e que vi crescer, como foi o caso da Suzi em 2014.

Chamamos o veterinário para dar cabo do sofrimento dela.

Dei-lhe um último pedaço de linguiça, que comeu com voracidade como se fosse viver não apenas os próximos 5 minutos, mas os próximos 50 anos.

Fiquei lhe fazendo carinho até o último minuto, sem lágrimas e com calma.

Penso que, quando vamos morrer, precisamos de pessoas calmas e carinhosas por perto e não desesperadas.

E, como não sei se estarei pronto para dar isso às pessoas que amo, que seja: dei à cachorra da família. (sei lá… acho que consegui dar isso a meu pai quando comecei a entender a pontinha do iceberg da morte)

Enfim, não me comovi muito. Não fiquei sentido. Mas isso não quer dizer que não senti, na ocasião.

O fato é que as minhas amigas sentiram a morte do gato. E até fizeram uma cerimônia de despedida.

Então, por elas, estou pensando na morte.

Em todas as mortes que já testemunhei.

Esta inclusive, a do gato Trotski. Morte que nelas, não no gato, testemunho.

A morte sempre é testemunhada de forma mais marcante não no morto, mas nos que estão em torno dele.

E, assim, também penso em todas as mortes que testemunharei ainda.

Morrer faz parte de viver, mas, antes disso, ver morrer também faz.

A morte da Suzi, em 2014, não me magoou nada. Até foi um alívio. Fiquei tranquilo.

Mas sinto que os carinhos que meu pai fez nela e os que a minha mãe fez e o modo como ela foi por essas duas pessoas cuidada também morriam fisicamente e definitivamente naquela hora.

E passavam a ser unicamente etéreos, material de memória.

Minhas próprias mãos que a tocaram, naquele momento, se tornaram menos sólidas do que antes eram; como se o tempo, representado pela morte, soprasse as camadas de materialidade.

A morte do outro ser, nos desfaz um pouco, como uma rocha – ilusoriamente tão sólida – que se esboroa sob o vento dos milênios.

O testemunho físico da pele e dos pelos dos animais de nossa passagem pela vida deles, morrem com eles em silêncio.

E, assim, uma parte de nós também morre.

E, como toda morte, não choramos pelo morto, mas por nós mesmos, por nossa própria morte, pela parcial de agora e pela definitiva do futuro. É por nós que são as celebrações, os réquiens, os velórios, os funerais, as lápides. Pela nossa morte.

Não a individual, mas a de todos, inevitável e necessária.

Texto: Alessandro Martins / Parte integrante da Newsletter Íntimo e Careca

Este não é o primeiro texto do Alessandro Martins, por aqui, não é a primeira vez que ele é citado, certamente não será a última.

Compartilho os textos do Alessandro, pois ele tem a fórmula mágica (que eu não tenho) de abordar com simplicidade, e também com alguma crueza (não para todos), temas incomentáveis. É difícil ser simples, objetivo e tão íntimo em uma simples carta. Ele consegue.

Quem me conhece sabe que a morte é um tabu para mim, cada dia menos, mas ainda é um tabu. E exatamente pelo comentário que ele faz ao final do texto. O lamento não é, necessariamente, pelo morto, mas pela morte. “Não a individual, mas a de todos, inevitável e necessária.”

Essa certeza incomoda. Por quê? Jamais saberei, mas… Vale a reflexão.

Carta de um filho intersexo ao seu pai

intersexo_imagem_de_Carol_Rossetti

Intersexo / Imagem: Carol Rossetti

Carta ao Pai

Daqui a pouco você completa (…) anos. Alguns minutos antes disso queria te falar umas coisas. Primeiro que te desejo uma vida boa e feliz, cuidando das suas casinhas, das suas reformas e construções . Desejo que vc encontre paz e uma vida tranquila que toda velhice merece.

Em segundo lugar , Eu queria dizer que o plano não deu certo. Você estava sobre pressão e naquele momento o médico era o Deus, sem dúvida Eu faria o que vocês fizeram na época. Seguindo as orientações médicas, você e a mãe guardaram um segredo que poderia mudar a minha vida, mas seu medo de minha reação fez com que isso fosse protelado, mas não foi justo, pois o que poderia me ajudar a me reconhecer melhor na vida ficou guardado nos recônditos das suas consciências, talvez torcendo pra que Eu nunca perguntasse. As bocas que fecharam, podem ate ter soltado uma coisa aqui e ali e eu inocente não percebi, mas um deslize foi cometido.

A carta pedida pela mãe ao hospital chegou às minhas mãos por acaso do destino revelando o que eu sou. Descobri que a mutilação genital consentida fez com que meu sexo biologico completo -apesar de pequeno/ fosse retirado e e em seu lugar um novo fosse colocado, mas identidade de gênero não se aprende -se é – e nesse sentido meu corpo imerso na confusão e desesperança, começasse a resgatar o que me foi tirado brutalmente e assumido numa nova forma.

Pai, Eu Sou Homem e de homem pra homem quero te dizer mesmo que com dor, obrigado. Eu não aceito ter sido convidado a pensar em vocês, nos meus parentes, por causa do evangelho que vocês pregaram. Essa dor ainda está alojada em mim, a dor de ser preterido como sou em favor de uma religião e uma aparência. Além disso, por um pensamento violento de que ao ser ameaçado de espancamento pelo próprio irmão , ouvir que se Eu fiz por merecer você não pode fazer nada.

Dói ouvir tudo isso, não sei quando a dor que vocês causaram pela liberdade de ser Eu será sanada. Sei que não posso mudar a cabeça de vocês, mas mesmo distante Eu espero um dia ser recebido como Sou e mesmo que isso não for possível saiba que tem meu respeito como meu genitor. Imagino que vcs sofreram em todo processo, Eu muito mais.

O estrago foi feito, me sentia estranha, distante e que nunca satisfazia. Eu ouvia que tinha que aceitar o que era, mas como aceitar algo que não conseguia se definir. Foram 33 anos de muita dor e muita lágrima, sofri anos de psicólogos em psicólogo quando a resposta que eu precisava estava na sua mão: Sim, Eu Sou Intersexo. E é aí que se revela o meu agradecimento: ganhei um objetivo de vida, lutar pelas crianças intersexo brasileiras que todos os dias são mutiladas nos hospitais deste país, algo que farei até o último dia da minha vida.

Toda brincadeira tem um fundo de verdade, ouvi que era adotada ou filha de fulano (a), não sei se você falava isso por culpa , mas junto a isso sempre me marcou tb perceber o quão pouco você falava, mas quando falava esperava coisas como essas e outras mais. Tal como minha profissão não dá dinheiro , Eu gosto de estudar e sei que preciso fazer outras coisas pra sobreviver. Me tornei cientista social (sonhava na adolescência em ser aqueles cientistas de filme) sei que não ficarei rico , mas sonho em um dia ser um acadêmico respeitado, tendo que o que comer e um teto onde ficar e pagar as contas já é o suficiente pra mim, alem disso com amigos a vida ganha leveza e companhia né?

Eu precisava te dizer que você não mesmo não amando o que sou, reconheço seu esforço para me encaixar em algo que nunca fui, mas agora Eu sou e posso ser sem as interferências de chatos e chates de plantão. Desejo que haja pais mais conscientes que impeçam ou contem para a criança sobre todo processo, lembrando que a verdade liberta e empodera, mesmo demorando é possível.

Que a dor da minha alma seja impulso pra militar pela vida de crianças que passaram por cirurgias como a minha e que crianças e jovens intersexo respeitem e aguardem a formação da identidade de gênero para poderem manifestar o seu desejo quanto a operação de mudança de sexo. A vc pai desejo carinho, amor e muita coisa boa pra ti.

*Texto compartilhado no Facebook por Amiel Vieira, cientista social, pessoa intersexo, que nasceu homem e passou por processo normalizador – quando indivíduos  intersexo são adequados em um gênero,  no caso dele feminino – consentido pelos pais aos 9 meses de vida. Teve sua condição mantida em segredo e, só recentemente, teve acesso ao seu prontuário médico e procedimentos que foi submetido. Atualmente é militante de movimentos de Visibilidade Intersexo. O ativismo visa sobretudo o direito e respeito à formação da identidade de gênero, até que crianças e jovens intersexo tenham maturidade para opinar sobre o desejo, ou não, da operação de mudança de sexo.

*Se quiser conhecer o blog do Amiel acesse o link: indeterminade.wordpress.com

*Para melhor compreensão do tema Intersexo, indico a leitura completa da matéria Pessoas Intersexuais Revelam suas Vivências.

*A imagem do texto é da Ilustradora e Designer Carol Rossetti, e este é o link da sua Página Oficial Facebook (super indico seguí-la).

Blog do amiel: indeterminade.wordpress.com