A piriguete de hoje faz História amanhã

Sempre que vejo uma mulher sendo taxada de “a louca”, “a puta”, “a exibida”, ou qualquer outro adjetivo, usado única e exclusivamente no sentido pejorativo, meus olhos e ouvidos ficam atentos. Essa promete… Afinal, a pervertida de hoje faz história amanhã. E a História (essa mesma, com H maiúsculo) está aí, para não desmentir.

Reuni alguns breves exemplos de mulheres que chocaram suas épocas, mas que abriram caminho para a desmistificação de tabus. Ousando ser elas mesmas,  fizeram mais pelas mulheres que qualquer lei ou militância política. Porque ousar ser autêntico e fiel a si mesmo na contramão do mundo, não é nada fácil…

George Sand (1804/1876)

George-SandMuito mais que moda, ao travesti-se de homem em pleno século XIX, George Sand (nascida Amandine Aurore Lucile Dupin), uma das precursoras do femininsmo, com sua transgressão gritava ao mundo – “Quem disse que as mulheres não podem?”.

Através de seus livros a autora criticava a desigualdade de gêneros, o amor, o casamento e a insatisfação sexual feminina. Através da própria vida, George Sand foi considerada por muitos, uma verdadeira versão feminina de Don Juan, tão sedutora quanto impotente, graças ao fato de ser mulher.

Amou vários intelectuais. Escritores como Jules Sandeau e Alfred de Musset, o músico Frederic Chopin, inclusive um relacionamento lésbico com a atriz Marie Dorval, considerada por muitos, o grande amor de sua vida.

Chiquinha Gonzaga (1847/1935)

chiquinha-gonzagaCompositora, pianista e regente brasileira. Foi a primeira chorona, primeira pianista de choro, autora da primeira marcha carnavalesca (“Ô Abre Alas”, 1899) e também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.  Desde cedo, frequentava rodas de lundu, umbigada e outros ritmos oriundos da África, pois nesses encontros buscava sua identificação musical com os ritmos populares que vinham das rodas dos escravos.

Aos 16 anos, por imposição da família do pai, casou-se com um oficial da Marinha Imperial brasileira que vivia mais no mar que em terra. Tendo com ele três filhos, mas diante das humilhações que sofria e recusa do marido de deixá-la dedicar-se à musica, separou-se causando um grande escândalo na época, levando consigo apenas o filho mais velho e tendo que deixar os dois mais novos sob tutela do pai.  Lutou em vão pela posse deles.

Apaixonou-se por um amor do passado, teve uma filha com ele e, mais uma vez, não tolerando suas traições separou-se e perdeu a grada de mais uma filha, que foi exigida pelo pai. Sofreu muito com essa a separação obrigatória dos filhos imposta pelos ex-marido e pela sociedade preconceituosa daquela época, que impunha duras punições à mulher que se separava do marido.

Aos 52 anos, após muitas décadas sozinha, mas vivendo feliz com os filhos e a música, conheceu Joãozinho, um jovem de 16 anos, talentoso aprendiz de musicista, por quem se apaixonou e que também se apaixonou perdidamente por essa mulher madura que tinha muito a ensinar-lhe sobre música e sobre a vida.

Temendo o preconceito pela diferença de idade, fingiu adotá-lo como filho, para viver o grande amor. Evitando escândalos em respeito aos seus filhos e à relação de amor pura que mantinha com ele. Pouquíssimas pessoas na época entenderiam, além de afetar sua brilhante carreira. Por essa razão também, mudaram-se para Lisboa, em Portugal, e foram viver felizes morando juntos por alguns anos longe do falatório da gente do Rio de Janeiro.

Chiquinha nunca assumiu de fato seu romance, que só foi descoberto após a sua morte através de cartas e fotos do casal. Ela morreu ao lado de Joãozinho, seu grande amigo, parceiro e fiel companheiro, seu grande amor, em 1935, quando começava o Carnaval

Coco Chanel (1883/1971)

coco-chanelUma das estilistas mais importantes do século XX, Gabriele Bonheur Chanel, mais conhecida como Coco Chanel, foi ousada em muitos aspectos da sua vida, tanto pessoal quanto profissional.

Lançou moda com seus cabelos curtos e encantou a alta sociedade francesa com interpretações de peças masculinas para a moda feminina. Como as calças compridas e o tailleur, uma espeécie de “terninho” feminino composto de casaquinho e saia, que foi coqueluche nos anos 50/60, graças à primeira dama americana, Jackie Kennedy.

Sua vida amorosa não foi menos interessante, Chanel viveu a vida cheia de ousadia e paixão. Pagando o preço por suas escolhas amorosas (como o envolvimento com um oficial alemão durante a segunda guerra que fez seu prestígio cair vertinosamente no pós guerra), mas terminou seus dias no luxuoso hotel Plaza.

Marilyn Monroe (1926/1962)

Marilyn-MonroeMarilyn Monroe (Norma Jeane Mortenson) dispensa apresentações. Foi uma das mais célebres atrizes norte-americanas, a loura burra mais inteligente de todos os tempos que através da sensualidade tornou-se um ícone de popularidade no século XX.

O que nem todo mundo sabe é que a atriz de cinema, cantora e modelo americana Norma Jeane, foi uma criança que conviveu com a solidão, o medo e a insegurança. Uma adolescente que morou em diferentes lares e orfanatos, e que mesmo chegando a ser um dos principais símbolos sexuais de todos os tempos, foi também vítima de abusos sexuais.

Marilyn começou a carreira em pequenos filmes, mas a sua habilidade para a comédia,  sensualidade e a sua presença em eventos levaram-na a conquistar papéis em filmes de grande sucesso. Ia na contramão das grandes divas, tinha 1,67 metro de altura, 94  centímetros de busto, 61 cm de cintura e 89 cm de quadril. E apesar da beleza deslumbrante, curvas e lábios carnudos, Marilyn era mais do que um símbolo sexual da década de 50.

Pin up inspiradora, sex simbol mundial, queridinha das comédias de Hollywood, amante de presidentes…  Sua aparente vulnerabilidade e inocência, junto com sua inata sensualidade, a tornaram querida no mundo inteiro. Ao mesmo tempo que era uma menina frágil e inocente, era uma mulher dominante e irresistivelmente sedutora.

Leila Diniz (1945/1972)

leila-dinizA professorinha de jardim de infância no subúrbio carioca, Leila Diniz. Aos dezessete anos, conheceu seu primeiro marido, o cineasta Domingos de Oliveira e casou-se com ele. O relacionamento durou apenas três anos, mas nesse meio tempo teve a oportunidade de trabalhar como atriz. Participou, ao todo, de quatorze filmes, doze telenovelas e várias peças teatrais. Descasou, casou novamente com o cineasta Ruy Guerra, e teve uma filha.

Até aí, nada de mais caso Leila Diniz não fosse uma expert em quebrar tabus em uma época que a repressão dominava o Brasil. Escandalizou ao exibir a sua gravidez de biquini na praia, e chocou o país inteiro ao proferir a frase:Transo de manhã, de tarde e de noite. Considerada uma mulher à frente de seu tempo, ousada e que detestava convenções. Foi invejada e criticada pela sociedade conservadora das décadas de 1960 e 1970.

Leila falava de sua vida pessoal sem nenhum tipo de vergonha ou constrangimento. Concedeu diversas entrevistas marcantes à imprensa, mas a que causou um grande furor no país foi a entrevista que deu ao jornal O Pasquim em 1969. Nessa entrevista, ela, a cada trecho, falava palavrões que eram substituídos por asteriscos, e ainda disse: Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo.

Depois dessa publicação, foi instaurada a censura prévia à imprensa, mais conhecida como Decreto Leila Diniz. Perseguida pela polícia política, Leila se escondeu sendo acusada de ter ajudado militantes de esquerda. Graças a estes acontecimentos, alegando razões morais, a TV Globo do Rio de Janeiro não renovou o contrato de atriz. De acordo com Janete Clair, não haveria papel de prostituta nas próximas telenovelas da emissora.

Sem chances na TV, Leila se reinventa reabilitando o teatro de revista, com uma curta e bem sucedida carreira de vedete. Estrelando a peça tropicalista Tem banana na banda, improvisando a partir dos textos escritos por Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. Recebe de Virgínia Lane o título de Rainha das Vedetes. No carnaval de1971, é eleita Rainha da Banda de Ipanema por Albino Pinheiro e seus companheiros.

Mulheres porretas, sim senhor!

E quando vejo hoje personagens de novela como a Suelen de avenida Brasil sendo rechaçadas por serem sexies demais,  Gracyannes Barbosa quase apedrejadas por curtirem seu corpo musculoso na contramão do que deveriam ser as musas do carnaval, Tonis Bentley escrevendo livros como A Entrega  e taxados como “pornográficos” por falar do prazer com o sexo anal…

Vejo o quanto ainda somos preconceituosos, e lembro do quanto o que hoje é uma transgressão aos poucos vai se tornando  uma conquista e mudando pouco a pouco o mundo que vivemos. Nos dando direito de ser quem somos, quem queremos ser.

Se pudesse desejar algo neste dia internacional da mulher, seriam coisas muito simples.

  • Que cada uma de nós pudéssemos ser (e amar) quem quiséssemos,
  • Trabalhar e ter reconhecimento justo (e financeiro) independente do gênero,
  • Ser realmente donas do nosso corpo para fazer escolhas sem sermos penalizadas por isso.
  • E ter todo direito de ser forte ou frágil, afinal, quem não é?!

Este post faz parte do Meme de Março, uma iniciativa das interneteiras do LuluzinhaCamp, que tem como única intenção, a diversão. Porque somos blogueiras e adoramos blogar, simples assim. Se você tem blog, corre para participar, clique aqui e saiba mais.

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