Filmes sobre a obra de Jane Austen

Recentemente assisti O Clube de Leitura de Jane Austen, nele cinco mulheres e um homem de diferentes idades reúnem-se uma vez por mês para debater os livros da autora Jane Austen. A motivação? Segundo Bernadete, personagem idealizadora do clube de leitura, nos livros da autora existe a receita para todos os males do mundo. Ao longo do filme, e dos livros debatidos, os participantes passam a refletir mais sobre suas vidas, fazendo um comparativo de si mesmos com as personagens e a obra da autora.

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Não concordo quanto aos livros serem um guia, as mulheres de Jane Austen são reprimidas demais, e mesmo as mais ousadas, ainda sonham com o seu príncipe encantado. Não é um oráculo, mas é bonitinho. Eu que adoro um bom romance para me entreter em um dia cinza, adorei. Sem contar que ainda tem o lindinho do Hugh Dancy, o agente Will Grahan da série  Hannibal.

Curiosamente, ou não, na semana que assisti ao filme, revi Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice), filme baseado no livro homônimo da autora. Dessa vez, talvez inpirada pelo filme anteriormente citado,  com outros olhos, outra percepção. E fiquei encantada.

Sei que filmes não substituem livros, mas no caso dos livros de Jane Austen (já li alguns) gosto bastante das adaptações, até mais que alguns deles.

E levada por essa onda de romance iniciei uma maratona de filmes baseados nos livros da autora. Apenas dois foram novidade (Mansfield Park e Northanger Abbey), os outros (Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Emma e Persuasão) eu já havia lido ou assistido

Sobre Jane Austen e sua obra

Becoming-Jane

Jane Austen (1775 / 1817) foi uma romancista inglesa conhecida por seu estilo irônico e descritivo, em uma época em que as mulheres não tinham voz, além dos fuxicos sociais,  e o romance, como gênero literário, era considerado de pouca importância, “coisa de mulher”.

Através do pensamento de suas heroínas, a autora dá vazão às angústias e opressões tão típicas ao sexo feminino da época, expondo com lente de aumento a redoma de futilidade que lhes era imposta, apresentando o casamento como única opção.

Apesar de passarem por poucas e boas ao longo da trama, suas personagens tinham sempre finais felizes ao lado de seus amados. Em contraponto à vida da própria Jane, que teve uma vida de restrições. Humilde, mantida por familiares (já que seus livros rendiam pouco), extremamente discreta devido à profissão, morreu solteira, aos 41 anos.

Nota: Apesar de ser uma obra de ficção, indico o filme Becoming Jane (em português, Amor e Inocência), uma alegoria sobre a juventude da autora, o contexto social em que vivia e seus amores. O filme, seguindo a linha dos romances da autora, tenta traçar uma espécie de biografia de Jane Austen, antes de ser a escritora famosa, retratando sua criação, vida em família e um suposto romance com o jovem advogado Thomas Lefroy. Apesar do relacionamento não ter ido adiante, dizem que o romance com Lefroy teria inspirado a obra Orgulho e Preconceito, seu livro mais famoso.

Razão e Sensibilidade – Sense and Sensibility (1811)

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Primeira obra da autora a ser publicada e escrita sob o pseudonimo “A Lady”. Neste livro, a autora delineia seu estilo, descrever a total falta de direitos femininos em uma sociedade dominada pelo machismo e convenções sociais. Cabe à mulher muito pouco além de um universo ligado à casa e futilidades, e às sem posses, menos ainda.

No cinema, foi dirigido por Ang Lee e conta a história relata os relacionamentos das irmãs Elinor e Marianne Dashwood,  filhas do segundo casamento de Mr. Dashwood. Elas têm uma jovem irmã, Margaret, e um meio-irmão mais velho, John. Quando o pai morre, a propriedade da família passa para John,  herdeiro por direito, por ser o único filho homem, e as mulheres Dashwood se vêem em circunstâncias adversas. Caindo bastante o seu padrão de vida e passando a viver da boa vontade de parentes.

O romance relata a mudança das irmãs Dashwood para uma nova casa, mais simples e distante, e seus relacionamentos (amizades e amores). O contraste entre as irmãs, mostrando Elinor mais racional e Mariane mais emotiva e passional, é resolvido quando cada uma encontra, à sua maneira, a felicidade. Ao longo da história, Elinor e Marianne buscam o equilíbrio entre a razão (ou pura lógica) e a sensibilidade (ou pura emoção) na vida e no amor.

Orgulho e Preconceito – Pride and Prejudice (1813)

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Apesar de ser o segundo livro a ser publicado, o romance estava finalizado desde 1797, antes de Jane completar 21 anos. Originalmente denominado First Impressions, título bastante sugestivo, já que o livro é um verdadeiro amor à segunda vista, nunca foi publicado sob este título. Somente após a revisão, foi renomeado e publicado como Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice).

A história é contada sob o ponto de vista de Elizabeth, jovem de 21 anos, segunda de cinco filhas de um proprietário rural na cidade fictícia de Meryton, em Hertfordshire, não muito longe de Londres. Como em outros livros, a protagonista funciona como um canal para discutir os problemas relacionados à educação, cultura, moral e casamento na sociedade aristocrática do início do século XIX, na Inglaterra.

Um dos pontos interessantes da istória é o fato dos protagonistas (Elizabeth e Mr Darcy) amarem/odiarem as mesmas qualidades/defeitos um no outro. A concretização do amor dos dois mostra que apesar de ambos serem orgulhosos e preconceituosos, são a prova de que a primeira impressão, nem sempre é a que fica.

Mansfield Park (1814)

Mansfield-Park

Das heroínas de Jane, Fanny Price é a mais diferenciada, pois apesar de pais vivos é tratada como orfã.  Aos 10 anos é de certa forma “adotada” pelos tios ricos (Sir Thomas, um barão, e Lady Bertram), de Mansfield Park e por uma tia (Sra Norris).

Em Mansfield Park, Fanny cresce com seus quatro primos mais velhos, Tom, Edmund, Maria e Julia, mas é sempre tratada como uma espécie de parente pobre. Apenas Edmund, o segundo filho, trata-a com carinho. Dos quatro, Edmund é o mais bem humorado e gentil, Maria e Julia são fúteis e mimadas, enquanto Tom é um jogador compulsivo e  irresponsável. Com o tempo, a gratidão de Fanny por Edmund secretamente cresce e se transforma em um amor platônico.

E apesar da vida de Fanny em Mansfield Park não ser perfeita, ela piora quando Sir Thomas viaja a negócios e, coincidentemente, chegam os  irmãos (Henry e Mary) Crawford, que perturbam o ambiente,  provocando uma série de envolvimentos românticos. Mary e Edmund se envolvem, apesar de sua preferência original por Tom, o primogênito. Enquanto Henry, primeiro flerta com as irmãs Bertram e quando não consegue nada se insinua para Fanny, que não corresponde e é repreendida pela família por não aceitá-lo. Coisas da época…

Óbvio que a mocinha ainda sofre bastante, como toda heroína de Jane, mas tem seu final redentor sendo aceita finalmente pela família, depois dos atropelos morais dos herdeiros, e por fim vivendo seu amor por Edmund.

Emma (1815)

Emma

Emma Woodhouse, bonita, inteligente, e rica“, assim a autora apresenta sua personagem. Emma, no entanto, é principalmente mimada e superestima seu poder de manipulação, não percebendo os perigos de interferir na vida das pessoas. Acreditando em seu potencial como casamenteira, se engana facilmente sobre o sentido das intenções e atitudes alheias, provocando uma série de maus entendidos em efeito dominó.

Das heroínas de Austen é a mais sem noção. Fútil e preconceituosa, como uma típica aristocrata em sua época, apesar de dona de um bom coração, Emma vive tropeçando em seu próprio ego, entristecendo e afastando os que a admiram e amam. Tanto, que ela passa a história inteira sem perceber o amor que seu melhor amigo (Mr. Knightley, único capaz de dizer-lhe algumas verdades)  nutre por ela.

O único ponto positivo,  se é que pode ser considerado assim, é o fato de defender que  não precisa de um marido para ser feliz. Infelizmente, só defende esse direito porque é rica 😦 E ainda assim, só acredita nisso até a página dois, pois quando percebe-se apaixonada, sofre por ter decepcionado Knightley e acredita que ele jamais a perdoará, mas… É uma história de Jane Austen, lógico que tem final feliz.

Northanger Abbey (1818) – póstuma

Northanger-Abbey

Grande parte da obra descreve a vida social em Bath (que a própria autora teve a chance de vivenciar) e uma outra parte  parodia os romances góticos, muito apreciados na época.

Sua heroína é a jovem Catherine Morland, que passa seus dias no campo a imaginar aventuras sombrias em antigos castelos ou mosteiros de arquitetura gótica. Catherine acredita que pode viver um desses sonhos. Quando tem a oportunidade de ser apresentada à sociedade em Bath, sua mente voa… E ao ser convidada a passar alguns dias na Abadia de Northanger a convite do pai de Henry Tilney, seu pretendente se vê em uma situação repleta de mistérios existentes muito mais na imaginação da mocinha que na vida real.

Um dos romances mais fantasiosos da autora, ele é uma crítica aos romances góticos como influência na imaginação fértil de meninas jovens da época. E ao mesmo tempo, é uma defesa incondicional aos romances em geral, que na época eram principalmente escritos por mulheres e considerados um gênero de segunda categoria.

Persuasão – Persuasion (1818) – póstuma

persuasion

Último e um dos meus romances preferidos da autora. A história gira em torno de Anne Elliot, uma solteirona (pasmem) de 27 anos, filha do meio de um arrogante baronete de Kellynch Hall.

Sete (quase oito) anos antes da história começar, Anne se apaixonou por Frederick Wentworth, mas  foi persuadida por sua família a desistir do casamento, por ele ser pobre, sem tradições e sem conexões familiares importantes. O rompimento foi promovido pela viúva e amiga da família Lady Russell, que não via vantagens no casamento e temia um futuro incerto para Anne.

Anos depois, tudo muda. A família de Anne passa por dificuldades financeiras, mas sem perder a pose, aluga a propriedade de Kellynch Hall ao cunhado de Wentworth, o Almirante Croft, para hospedar-se em Bath cheios de pompa e circunstância. Frederick agora é um um promissor oficial da marinha, enquanto Anne (por não ter casado) vive como uma bola de ping-pong para lá a para cá cuidando da irmã mais nova, já casada e com saúde frágil. Triste realidade das solteironas da época…

O reencontro com Anne é carregado tanto de arrependimento da parte dela, que jamais o esqueceu e lamenta ter se deixado persuadir, quanto mágoa da parte dele que jamais se recuperou de todo da rejeição. A personagem Anne sofre, mas cresce muito ao longo da história. Deixando de ser uma ratinha assustada para tomar as rédeas da própria vida.

Gosto muito do momento em que Anne sai correndo para encontrá-lo, passando por cima das imposições sociais e indo atrás dele apesar de ainda não ter certeza da paixão correspondida. O momento é lindo e corajoso porque ela ainda não sabe que o primo rico arrastando asas para ela é um golpista safado.

É… Na obrade Jane Austen, o amor realmente transforma!

Fontes:

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5 comentários sobre “Filmes sobre a obra de Jane Austen

  1. Marcia BElloube disse:

    Adorei o artigo!! Parabéns… uma sugestão: assista as minisséries Emma e Razão e Sensibilidade da BBC!!! Aí sim vc ira se surpreender mais ainda… Estou compartilhando seu link em alguns grupos da jane Austen que participo!!

    • Muito obrigada pelo comentário. Gosto bastante de livros (ou filmes baseados neles) que retratam a Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, adoro a Emily e Charlote Brontë também… Depois de Northanger Abbey, interessei em conhecer mais sobre outras autoras da época, a grande maioria escrevia sob pseudônimos masculinos.

  2. Luciana disse:

    Você já assistiu ao filme “Jane Austen Regrets” da BBC? Um filme sobre a vida da Jane Austen na sua fase adulta e particularmente gostei mais deste filme do que “Becoming Jane”.

    Gostei muito do seu blog. 🙂

    • Valeu a dica Luciana. Achei Becoming Jane bobinho, mas como curto gosto dos atores (Anne Hathaway e James McAvoy) e do gênero romance foi um bom entretenimento. Anotei este título e vou procurar tb as outras séries sugeridas pela Märcia.

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