Relembrar é preciso

Este texto faz parte da blogagem coletiva pela democracia. Uma iniciativa dos grupos de discussão LuluzinhaCamp, Blogueiras Feministas e FemMaterna.

Antes de tudo preciso dizer que nunca lamentei tanto ser uma leiga em política e afins como nos últimos dias. E me sinto de certa forma culpada por minha cômoda alienação. Como boa parte dos brasileiros, nunca entendi de política era mais fácil assim. Se neste momento até especialistas estão perdidos em entender e opinar sobre os acontecimentos desse outono brasileiro, imagine eu, uma semi-analfabeta no assunto?!

Esta Blogagem Coletiva Pela Democracia*, é uma ótima ótima oportunidade de me informar melhor e compartilhar o assunto. Os teóricos e experts que me perdoem, mas entender à minha maneira é fundamental. Este post é a minha reflexão sobre história, democracia, direitos e deveres, política e cidadania.

Como bem comentou a Renata Correa, idealizadora desta blogagem coletiva, em seu facebook: “O legado das manifestações de junho é a política ter voltado a roda das pessoas como um assunto que vale a pena ser debatido. Prefiro mil vezes que as pessoas pensem política do que “não gostem” ou “não se interessem” por política.”

*Democracia – (“demo+kratos”) é um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), direta ou indiretamente, por meio de representantes eleitos — forma mais usual.

1970: terror e futebol (o ópio do povo)

Medici copa 70

Nasci em 1970, ano que o Brasil ganhou o tricampeonato mundial de futebol. Terceira filha de uma típica família da classe média/baixa, na zona oeste do Rio de Janeiro. Pai provedor, mãe dona de casa, ambos migrantes do norte e nordeste do país, que sequer tinham o segundo grau. Enfim, uma família bem comum.

Não sofremos diretamente com a repressão (tortura, exílio, etc), certamente por não entendermos nada e aceitarmos tudo. O medo calou muita gente, nem sempre pela repressão ou por alienação, mas por prevenção. A verdade é que graças a brasileiros típicos como nós, todos pagamos o preço até hoje.

Havia um certo terror no ar. Para o governo militar*, nada foi mais oportuno que ganhar a copa naquele ano que foi um dos anos mais tensos da história do Brasil. E o futebol, que sempre foi o ópio do povo, gerando uma euforia nacionalista que foi a grande jogada de marketing do governo Médici (de 1969 a 1974). Quem não se lembra do hino “A taça do mundo é nossa” entre outras?

*Governo Militar – de 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985. A implantação da ditadura começou com o Golpe de 1964, quando as Forças Armadas do Brasil derrubaram o governo do presidente constitucional João Goulart e terminou quando José Sarney assumiu o cargo de presidente. A revolta militar foi fomentada por Magalhães Pinto, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, governadores dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente, com apoio dos grandes veículos de comunicação.

Congresso Nacional. Ruim com eles? Pior sem eles…

AI 5

Foi um período complicado… Em nome do bem do povo, desmandos eram cometidos pelos militares. As coisas que já estavam muito estranhas desde o golpe, ficavam ainda piores para todos e não só para quem peitava a ditadura

A partir de 1965, com o AI2, havia apenas duas associações políticas nacionais, nenhuma delas podia usar a palavra “partido”. Criou-se então a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), que foi base de sustentação civil durante o regime militar, formada majoritariamente pela UDN e egressos do PSD, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), com a função de fazer uma oposição coxinha (única possível na época) que fosse tolerável ao regime.

Houve uma sangrenta caça aos guerrilheiros, que eram eliminados em condenação à revelia, a uma pena de morte velada, mas pré-determinada. Inimigo era qualquer um que pensasse diferente do Governo. Protestar? Totalmente proibido. Era a época do “Brasil: ame-o ou deixe-o!”, do exilados políticos, da censura… Foi revelado ao mundo o que até então os militares negavam veementemente, a existência de tortura no país.

E se é ruim hoje deputados que não nos representam, imagine não ter sequer o direito à representação? O AI5*, instrumento que deu ao regime poderes extraordinários e absolutos, teve como primeira grande consequência o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano, limitando os direitos da sociedade, provocando uma série de protestos e guerrilhas urbanas que pipocaram pelo país.

*AI5 – O Ato Institucional Número Cinco, foi o instrumento que deu ao regime militar poderes absolutos e cuja primeira consequência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano. Redigido em 13 de dezembro de 1968, entrou em vigor durante o governo do então presidente Costa e Silva. Veio em represália à decisão da Câmara dos Deputados, que se negara a conceder licença para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por um discurso onde questionava até quando o Exército abrigaria torturadores – “Quando não será o Exército um valhacouto de torturadores?” – e pedia ao povo brasileiro que boicotasse as festividades do dia 7 de setembro.

Congelou, virou vidro, quebrou…

diretas já henfil

A década de 1970 foi sem dúvida o auge da ditadura. O período contrastou um excepcional crescimento econômico, o “milagre brasileiro“, com os “anos de chumbo“, onde o regime censurava a todos os meios de comunicação, torturava e exilava dissidentes. Era um governo de mãos de ferro.

Em 1979, o general Figueiredo, talvez já prevendo a decadência do regime, aprovou a Lei de Anistia para os crimes políticos cometidos pelo (inclusive torturadores e outros) e contra o regime (guerrilheiros, exilados), assim como relaxava as restrições às liberdades civis. No início dos anos 80 a ditadura brasileira entrou em decadência e o governo não conseguia mais estimular a economia e diminuir a crônica inflação, o que impulsionou um movimento pró-democracia.

Ficamos anos, muitos anos sem direito a eleger nossos governantes. Somente entre 1983 e 1984, o movimento pelas eleições diretas para presidente, a emenda Dante de Oliveira, levou milhares de pessoas às ruas. E apesar da emenda não ter passado, em 1984 foi realizada a primeira eleição com candidatos civis desde o golpe militar de 1964.

Somente com a aprovação da Constituição de 1988, o Brasil voltou a ser uma democracia e os militares foram mantidos sob controle institucional civil, sem nenhum papel político relevante.

Aos dezoito anos eu vi o fim de uma ditadura tão rígida que quebrou, primeiro conosco, depois com ela mesma. Somente hoje, vinte e cinco anos depois eu vejo o Brasil acordar consciente que a democracia é um poder do povo e não o contrário.

*Emenda Dante de Oliveira – Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº5/1983, apresentada pelo Deputado Federal Dante de Oliveira (PMDB-MT), que tinha por objetivo reinstaurar as eleições diretas para presidente da República no Brasil, através da alteração dos artigos 74 e 148 da Constituição Federal de 1967 (Emenda Constitucional nº 1, de 1969), uma vez que a tradição democrática havia sido interrompida no país pelo golpe militar de 1964.

Alienação não muda nada

17 de junho de 2013

Hoje, assistindo às manifestações populares desse junho de 2013, me emociono. Me emociono, pois nunca vi nada igual. Viver em um país onde o direito à expressão é possível é quase utópico! Somente possível em um país democrático, um direito conquistado. E é disso que não podemos esquecer.

Quem viveu uma ditadura sabe o que é não ter direitos, e talvez por isso nos emocionemos tanto com este momento. O poder da democracia vem do povo e é para o povo. É ter o direito a exercer nossos direitos. E para exercê-los é necessário sabê-los, conhecê-los, inclusive ou sobretudo, seus efeitos em nossa história.

Se Diretas Já foi um movimento guiado por artistas e intelectuais e os Carapintadas pela juventude, esse levante atual é de todos. Sequer sabemos nomeá-lo.

As manifestações não são apenas válidas, mas necessárias. Foram como um balde de água fria em alguém sonolento, acordamos. No entanto, para nos manter acordados é preciso informação. Temos que entender para cobrar. Parar com o discurso que política é uma coisa chata. Lembrar, para escrever uma nova história consciente dos erros e dos acertos. O voto ainda é nosso maior direito e também principal arma.

Depois de tantos anos mal informados, conformados, é com muita fé que vejo este momento. Nunca mais quero boiar nesse mar de lama, sem sequer entender que estou nele. A alienação política só atende a um lado e, definitivamente, não é o nosso.

Agora me deem licença, pois vou ali, me informar mais um pouquinho.

Fontes:

Anúncios