De antissocial a agorafóbica | Como reverter este quadro?

deiAgorafobia - image by ValetheKid on flickr
Sempre fui meio ostra, antissocial, estar em meio a muita gente é um stress enorme para mim, angustiante até (já fui quase pisoteada em um show ao ar livre ainda criança e não tenho medo de multidão, tenho  pânico). Ainda assim, a maioria das vezes disfarço bem esse meu medo de gente. Poucos acreditam, mas sou tímida. Nervosa, eu falo demais e as pessoas confundem meu desespero com extroversão.

O fato de eu não ingerir bebidas alcoólicas me segrega ainda mais. Reunir-me com os amigos na mesa de um bar é uma experiência inicialmente deliciosa, afinal eu os amo, mas à medida que o grau etílico das outras pessoas é aumentado eu começo a me sentir em um mundinho paralelo. Já que não consigo acompanhar a descontração, as gargalhadas e, sobretudo, deixar de morrer de vergonha alheia. É… Muitas vezes eu tive vergonha da postura dos meus amigos em uma mesa de bar. E rolava uma certa culpa, pois a estranha no ninho ali era eu.

Com o tempo fui descobrindo mecanismos  de melhor socialização. Em grupos pequenos me sinto mais acolhida (obrigada Cris Melo. Obrigada Lu, Lili, Carla e Charô. Amo vocês). Para ter encontros, prefiro matinés a noitadas,  cafés a bares, exposições a festas, passeios ao ar livre a shoppings… Estou aprendendo.

Ainda assim, mesmo com tantos macetes para melhor conviver com as pessoas, eventualmente minha ansiedade me dá uma rasteira. Em 2013 deprimi profundamente devido a enormes mudanças na minha vida em um curto espaço de tempo. Fiquei expert em desculpas para não sair de casa. E se não trabalhasse home office, teria ficado ainda pior.

Duas crises de pânico, uma delas que me congelou ao ponto de eu sequer saber como voltar pra casa, exigiu carinho de mãe ao telefone para me acalmar e conduzir de volta pra casa. Resultado? Uma quase agorafobia (transtorno ligado ao ataque de pânico que faz com que a pessoa evite situações que  ela imagina que podem colocá-la em risco, confinando-a, de certa forma) que me deixou quase quatro meses sem sair de casa. Entrei numa espiral descendente, cada vez mais profunda e estava difícil sair daquilo.

Tentei conseguir psiquiatra, psicólogo, mas SUS, sabe como é… E diante do meu quadro, em que sair de casa é um parto, já viu… Um dia consigo ajuda médica, melhoro sozinha, ou piro de vez, vai saber…

Um dia, uma frase da minha mãe me acordou de um transe. Ela disse que a porta do meu quarto não era uma muralha. Aquilo me incomodou, chorei, amuei, pois naquele mesmo dia, eu mesma havia escrito em um papel alguns comportamentos que queria mudar, porque e como faria isso. Sair do meu quarto era a primeira meta, interagir com meus familiares também. Outras metas maiores viriam depois e vieram. Desde aquele dia, voltei a passar algum tempo na sala, cozinha, quintal, acariciar meus cães, brincar com eles…

Quando me senti mais forte comecei a ir à frente da casa, a lugares próximos como o banco 24h aqui pertinho, à farmácia, até que um dia ousei um café com um amigo (ele sabe o quanto sou grata por ter insistido no convite, já que neguei algumas vezes). Foi estranho, foi dolorido, tive medo, achei que coisas terríveis pudessem me acontecer, mas… Fui! E nada de mau aconteceu. Ufa!

Desde então, pouco menos de um mês e meio, já saí quatro vezes, fui a duas exposições, reencontrei amigos queridos… Às vezes me sinto super forte e capaz de qualquer coisa. Noutras vezes ainda me retraio e não consigo sair de casa. Ainda tomo ansiolíticos, que me ajudam a ir adiante, mas minha intenção é aumentar as caminhadas, que promovem um grande bem estar, para largar os ansiolíticos de vez.

Enquanto isso vou tentando, a passinhos de bebê, dar o próximo passo, superar o novo limite… Começo o ano como um bebê de dois anos. De vez em quando buscando apoio nos meus bichos, nas pessoas próximas, ao mesmo tempo que tento dar meus passos mais seguros, independentes. O processo não é simples, é lento, uns dias consigo, noutros não… Quem sabe um dia ainda vou rir disso tudo.

Hoje não amanheci bem, quero sair, encontrar amigos em um quiosque na praia, mas me sinto paralizada. Olho para a cama e vejo a roupa arrumada, cuidei das unhas, modelei meus cachinhos… Penso neles, os meus amigos, no quanto quero lhes dar um abraço, mas… Só consigo pensar na aglomeração de pessoas, em um possível arrastão,  no risco de não ter grana para acalmar a fissura do bandido, na volta pra casa… Na mente de um ansioso, o quadro imaginado é sempre o pior possível.

E minha cabeça dói, minha pressão aumenta, enjoo… E taca um ansiolítico para dentro, e dá-lhe ficar lerda com o efeito. E de repente, tudo o que eu quero é dormir e esquecer  toda esta situação que só aconteceu no meu pensamento.

É o caminho é longo e só depende de mim… Baby steps, baby steps…

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Photo Credit: ValetheKid via Compfight cc

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4 comentários sobre “De antissocial a agorafóbica | Como reverter este quadro?

  1. Como eu disse, Beth. Estou certo de que vai superar tudo isso da melhor forma possível. Já tive crises de pânico por volta dos 18 ou 19 anos de idade e o que ajudou a acabar com elas de uma vez foi saber o motivo. No caso, era um motivo físico: eu tinha prolapso na válvula mitral. O coração disparava, eu ficava com medo de morrer, e, por isso, o coração disparava e eu ficava com medo de morrer. Sair sozinho dava muito medo, mas eu saía pq eu sabia que precisava. Fica outra dica: não custa nada fazer um ecocardiograma simples só pra ver qual é. Eu, pelo menos, tão logo soube da causa nunca mais tive nada.

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