Clandestinas

CLANDESTINAS - YouTube

Clandestinas – Documentário sobre aborto no Brasil. Mulheres contam sua experiência interrompendo uma gravidez. Atrizes interpretam relatos reais. Clique na imagem para assistir o vídeo no youtube.

Pouco falo do assunto, mas uma coisa é fato, independente de qualquer um de nós achar certo ou errado o aborto, apoiar ou não a legalização e descriminalização, depois da entrevista da Renata Corrêa ao Profissão Repórter ontem sobre o doc Clandestinas,  três sentimentos me tocaram e compartilho com vocês:

  • orgulho (de ver a ousadia de pessoas falando – sem julgamento moral – da descriminalização do aborto),
  • frustração (porque o enfoque durante o programa foi muito superficial devido à diversidade de opiniões sobre o mesmo assunto e o programa ter apelado mais para o tom emocional que para a reflexão do assunto em si)
  • curiosidade (tenho um respeito enorme a tudo que tem o dedo da Rê Corrêa no meio).

Bom, assisti e não me decepcionei. Com direção de Fadhia Salomão, roteiro de Renata Corrêa e produção de Babi Lopes o vídeo ao mesmo tempo choca e emociona. Vale assistir, refletir, continuar (ou não) com as próprias convicções, mas sobretudo repensar a questão do direito da mulher e posicionamento da saúde pública relacionada ao aborto.

  •  clique aqui para ler mais sobre este documentário triste e emocionante.

Independente da criminalização, o aborto é praticado diariamente, na maioria dos casos  sem as menores condições de higiene e saúde, levando a óbito ou traumatizando mulheres jovens que, por desespero ou convicção, recorreram à clandestinidade.

E antes que pensem que sou pela banalização do aborto. No way! Eis um ato que enche de culpa quem faz, e ao mesmo tempo, os bolsos de quem fez. Só quem sai ganhando é uem explora essa clandestinidade.

Vale pensar e refletir.


Ficha Técnica:

Documentário: Clandestinas – Documentário sobre aborto no Brasil.
Mulheres contam sua experiência interrompendo uma gravidez. Atrizes interpretam relatos reais.
Direção: Fadhia Salomão
Roteiro: Renata Corrêa
Produção: Babi Lopes
Apoio: SOF e IWHC

Soneto do Amor Maior | Vinícius de Moraes

Se já postei, reposto! Acho sensacional este soneto de amor obsessivo, louco, desassossegado de Vinícius de Moraes, que se assume um descarado sedutor, Dominador e levemente sádico… “Louco amor meu, que quando toca, fere / E quando fere vibra (…)”

Miss Masochist / imagem de babelglyph no Flickr

Soneto do maior amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Oxford, 1938.

Fonte: (Livro dos Sonetos – Vinicius de Moraes)

Cadeirinha

Só por hoje quero compartilhar esse texto lindo da Gabi Bianco, cheio de metáforas profundas, doces e rascantes, dilacerantes… Este texto me fez pensar sobre as “cadeiras”, lindas, mas sem serventia, que temos em nossas vidas. Troque a palavra cadeira por qualquer outra como: pessoa, coisa, atitude negativa/depreciativa… E verá como nenhum de nós necessita ter algo sem função na própria história. (Sim, o texto também é para mim, li, reli, e achei importantíssimo repostar).

Gabi Bianco

Dêem play na música antes de ler. Vai ser legal.

Toda semana eu vou à terapia e presto atenção no consultório ao lado do qual eu sou atendida. Através da porta vejo uma poltrona estampada e, ao lado dela, uma cadeirinha em miniatura. É uma cadeirinha de madeira, simples, porém muito pequena para que alguém se sente, mesmo uma criança, e muito grande para ser colocada sobre uma mesa como decoração.

Certas vezes há uma caixa de lenços de papel sobre a cadeirinha, noutras ela está vazia, e essa semana havia um pequeno vaso de plantas sobre ela. O que nunca vi é alguém sentado na cadeira. É um cadeira que não foi e nem será usada para a função para a qual foi criada, a menos que um elfo ou gnomo resolva sentar-se ali. É uma cadeira-mesinha, cadeira-banquinho, cadeira-suporte, cadeira-enfeite. Só não é uma cadeira-cadeira. E que triste ser…

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Anúncio de jornal | Crônica de Alessandro Martins

casal na cama - foto de Uruvyel, no Flickr

Photo Credit: Uruvyel via Compfight cc

Sou um animal adulto. Estou pleno de minhas funções reprodutivas. Não apenas para contrariar as pesquisas que dizem que o homem médio atinge o auge dessas atividades aos 17 anos, mas também para meu próprio deleite, pois diferente dos outros mamíferos, considero o sexo uma atividade bastante divertida, assim como, imagino, os meus companheiros de espécie.

Tenho uma cama. Grande o suficiente para, sozinho, esparramar o corpo, pequena o bastante para, em companhia, aconchegar. Então há essa cama que cabe no meu quarto, há lençóis que cabem nessa cama e, eventualmente, o mais importante, há uma mulher que cabe em meus lençóis.

No entanto, mais das vezes, juntos, não cabemos nos lençóis, na cama, no quarto. Nos esparramamos pelo apartamento, com planos de irmos para as escadas, elevador, hall e terraço. A intenção é ocupar o espaço nos planos horizontais, em diferentes longitudes e latitudes, e também nos verticais, em diversas profundidades e alturas. Demarcar território está entre as atitudes dos animais adultos, ligada geralmente à caça e ao sexo.

A cama, esta que tenho: às vezes grande, às vezes pequena. Um móvel versátil e mais musical que um piano de cauda. Não à toa, se diz que para tirar sons dos instrumentos dizemos que os tocamos. A diferença é que, na cama, a música sai dos instrumentistas. Em algumas ocasiões, em silêncio, sai para dentro. Prefiro o pleonasmo do avesso à rima barata que agora me ocorre.

Em outras ocasiões, vaza para os vizinhos. Mas não quero repetir o tema da ocupação do território. Pois certas canções soam melhores aos ouvidos de quem as entoa que aos ouvidos da platéia. Isto é, nem sempre os vizinhos gostam de algazarra. E minha predileção agora vai para o pleonasmo barato, para prejuízo da rima rica. Saio para fora, pela janela, e pergunto se a pessoa que mora no apartamento de cima tem mãe.

Porque nessas horas tudo pode acontecer. Em oportunidades, já ri. Já chorei. Assumi um ar grave, virei maldito, atleta e preguiçoso. Inventei mil histórias como pretexto de um único ato. Torno-me uma espécie de Jesus lúbrico e crucificado. Nessas horas, tudo pode acontecer, posso ter todas as reações, mas não me interrompa.

– Tens mãe?!

Eu não faço isso. Mas rogo pragas.

Sexo é sexo. Amor é amor. De fato, uma coisa nada tem a ver com a outra, em princípio. Porém meu coração, do tamanho de um pequeno punho fechado, tem veias caudalosas. Ele é uma cidade com largas avenidas, difíceis de atravessar, fáceis de serem trilhadas. Por isso, há horas em que é impossível saber o que é sangue, o que é carne, o que é ela.

Como saber se a minha alma não está, nesses momentos, não no peito, mas na virilha? Não no peito e na virilha, mas por toda parte, inclusive na janela, nas cobertas, na caneca de café, por entre as roupas, na página marcada do livro?

Minha lascívia, minhas taras, minhas perversões, assim, acabam por ser o que há de mais romântico e quixotesco do que tenho para dar. Nunca vi moinhos de vento de perto, nunca montei Rocinante, porém, por vezes enlouqueço como o Cavaleiro da Triste Figura. Mas sou feliz.

Esses nomes de mulheres em seqüência de que agora lembro, que passaram por minha vida, provam que uma existência não pode ser resumida como se fosse um currículo. Há o inexplicável por trás desses nomes enfileirados e que me olham como emoção sólida. Neles, a esperança de que um momento fosse eterno, ainda que essa mesma sucessão de palavras, tão femininas, demonstre que, na verdade, cada instante é passageiro. Nelas, nessas letras miúdas encadeadas, não cabe tudo o que significaram, o que significam.

Como um animal adulto, tive dores e prazeres. Os prazeres são mais discretos em sua remanescência, secretos e íntimos. Já as dores são mais extrovertidas. O mais comum é que se lembre da dor. Ninguém nunca veio me mostrar uma cicatriz e disse:

– Olha, isso aqui foi um beijo.

– Olha, isso aqui foi um abraço.

– Olha, isso aqui foi um afago.

– Olha, isso foi uma noite dormindo junto.

As cicatrizes dos prazeres são mais sutis e os animais adultos, normalmente, não conseguem percebê-las. Mas eu as tenho, sim, de todos os tipos. E eventualmente reconheço ambas nos meus semelhantes. Possuo eu as de prazer e as de dor. Gosto de todas elas. Elas sim são meu currículo. Não, não são. Chegam perto. Quero mais.

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Este texto faz parte da Newsletter Íntimo e Careca do queridíssimo Alessandro Martins, responsável pelo site Livros e Afins. Aos domingos, ele nos presenteia com suas pérolas em forma de palavras. Se gostou deste e interessou em conhecer outros textos do autor, eis aqui o link para que assinar a newsletter. E se, como eu, apaixonar saiba que é possível não só assinar, mas também contribuir como mecenas do autor. Afinal, ele merece ser pago por seu lindo trabalho.

Mesmo se nada der certo | Begin Again

Cena do filme Begin Again, Mesmo se nada der certo
Ontem tive uma baita insônia. Li um pouco, vi TV, não aguentando mais o ócio, resolvi assistir um filme que sequer sabia a história (tenho feito muito isso e tido gratas surpresas). E este filme me fez pensar… Quem nunca precisou de uma segunda chance?

O filme Mesmo se Nada Der Certo, Begin Again, como o próprio nome diz, tem uma pegada que oscila up/down – down/up, mostrando que de altos e baixos a vida de todos nós está repleta, mas acreditando de verdade que fazemos o que amamos (er… nem sem, mas…) a vida conspira em nosso favor.

Mark Ruffalo, sensacional, e Keira Knightley sempre iluminando seus filmes com aquela gargalhada gostosa que só ela tem.

Trilha sonora meio indie, gracinha, com auxílio luxuoso de participação especial de Adam Levine.

Entretenimento gostosinho para aqueles dias sem muita pretensão.