Anúncio de jornal | Crônica de Alessandro Martins

casal na cama - foto de Uruvyel, no Flickr

Photo Credit: Uruvyel via Compfight cc

Sou um animal adulto. Estou pleno de minhas funções reprodutivas. Não apenas para contrariar as pesquisas que dizem que o homem médio atinge o auge dessas atividades aos 17 anos, mas também para meu próprio deleite, pois diferente dos outros mamíferos, considero o sexo uma atividade bastante divertida, assim como, imagino, os meus companheiros de espécie.

Tenho uma cama. Grande o suficiente para, sozinho, esparramar o corpo, pequena o bastante para, em companhia, aconchegar. Então há essa cama que cabe no meu quarto, há lençóis que cabem nessa cama e, eventualmente, o mais importante, há uma mulher que cabe em meus lençóis.

No entanto, mais das vezes, juntos, não cabemos nos lençóis, na cama, no quarto. Nos esparramamos pelo apartamento, com planos de irmos para as escadas, elevador, hall e terraço. A intenção é ocupar o espaço nos planos horizontais, em diferentes longitudes e latitudes, e também nos verticais, em diversas profundidades e alturas. Demarcar território está entre as atitudes dos animais adultos, ligada geralmente à caça e ao sexo.

A cama, esta que tenho: às vezes grande, às vezes pequena. Um móvel versátil e mais musical que um piano de cauda. Não à toa, se diz que para tirar sons dos instrumentos dizemos que os tocamos. A diferença é que, na cama, a música sai dos instrumentistas. Em algumas ocasiões, em silêncio, sai para dentro. Prefiro o pleonasmo do avesso à rima barata que agora me ocorre.

Em outras ocasiões, vaza para os vizinhos. Mas não quero repetir o tema da ocupação do território. Pois certas canções soam melhores aos ouvidos de quem as entoa que aos ouvidos da platéia. Isto é, nem sempre os vizinhos gostam de algazarra. E minha predileção agora vai para o pleonasmo barato, para prejuízo da rima rica. Saio para fora, pela janela, e pergunto se a pessoa que mora no apartamento de cima tem mãe.

Porque nessas horas tudo pode acontecer. Em oportunidades, já ri. Já chorei. Assumi um ar grave, virei maldito, atleta e preguiçoso. Inventei mil histórias como pretexto de um único ato. Torno-me uma espécie de Jesus lúbrico e crucificado. Nessas horas, tudo pode acontecer, posso ter todas as reações, mas não me interrompa.

– Tens mãe?!

Eu não faço isso. Mas rogo pragas.

Sexo é sexo. Amor é amor. De fato, uma coisa nada tem a ver com a outra, em princípio. Porém meu coração, do tamanho de um pequeno punho fechado, tem veias caudalosas. Ele é uma cidade com largas avenidas, difíceis de atravessar, fáceis de serem trilhadas. Por isso, há horas em que é impossível saber o que é sangue, o que é carne, o que é ela.

Como saber se a minha alma não está, nesses momentos, não no peito, mas na virilha? Não no peito e na virilha, mas por toda parte, inclusive na janela, nas cobertas, na caneca de café, por entre as roupas, na página marcada do livro?

Minha lascívia, minhas taras, minhas perversões, assim, acabam por ser o que há de mais romântico e quixotesco do que tenho para dar. Nunca vi moinhos de vento de perto, nunca montei Rocinante, porém, por vezes enlouqueço como o Cavaleiro da Triste Figura. Mas sou feliz.

Esses nomes de mulheres em seqüência de que agora lembro, que passaram por minha vida, provam que uma existência não pode ser resumida como se fosse um currículo. Há o inexplicável por trás desses nomes enfileirados e que me olham como emoção sólida. Neles, a esperança de que um momento fosse eterno, ainda que essa mesma sucessão de palavras, tão femininas, demonstre que, na verdade, cada instante é passageiro. Nelas, nessas letras miúdas encadeadas, não cabe tudo o que significaram, o que significam.

Como um animal adulto, tive dores e prazeres. Os prazeres são mais discretos em sua remanescência, secretos e íntimos. Já as dores são mais extrovertidas. O mais comum é que se lembre da dor. Ninguém nunca veio me mostrar uma cicatriz e disse:

– Olha, isso aqui foi um beijo.

– Olha, isso aqui foi um abraço.

– Olha, isso aqui foi um afago.

– Olha, isso foi uma noite dormindo junto.

As cicatrizes dos prazeres são mais sutis e os animais adultos, normalmente, não conseguem percebê-las. Mas eu as tenho, sim, de todos os tipos. E eventualmente reconheço ambas nos meus semelhantes. Possuo eu as de prazer e as de dor. Gosto de todas elas. Elas sim são meu currículo. Não, não são. Chegam perto. Quero mais.

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Este texto faz parte da Newsletter Íntimo e Careca do queridíssimo Alessandro Martins, responsável pelo site Livros e Afins. Aos domingos, ele nos presenteia com suas pérolas em forma de palavras. Se gostou deste e interessou em conhecer outros textos do autor, eis aqui o link para que assinar a newsletter. E se, como eu, apaixonar saiba que é possível não só assinar, mas também contribuir como mecenas do autor. Afinal, ele merece ser pago por seu lindo trabalho.

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