Perder o passo e deixar a vida passar

Photo Credit: Lia Guedes via Compfight cc

Photo Credit: Lia Guedes via Compfight cc

Em agosto de 2013, um ano de muitas mudanças em minha vida, recebi a visita da médica da família em nossa casa. E depois de muitas perguntas e algumas respostas.  A Doutora foi enfática: “Elizabeth, você está doente, posso ajudar de algumas maneiras, e vou, mas a principal não está em minhas mãos. Vou te encaminhar ao psiquiatra e ele vai tratá-la melhor do que eu. Você está em depressão, e se fosse algo simples, eu mesma poderia medicar, mas há algo mais que eu não ouso dar pitaco. Por hora, vou marcar nutricionista, indico atividade física, mais por conta da sua hipertensão, mas que também pode ajudá-la num tratamento antidepressivo…”

E a voz dela foi ficando distante, distante, distante… Eu já havia visto este filme, não uma, mas duas vezes, pelo menos. Não tinha mais medo das palavras psiquiatra, antidepressivos, pânico, mas senti naquele momento uma mistura de alívio (afinal, já pensava nos piores tipos de doença) e fracasso (como eu pude me deixar deprimir… mais uma vez). Àquela altura eu só conseguia me culpar sobre como não percebi a depressão voltar e se apossar de mim. Só quem já esteve no fundo do poço, em algum momento, sabe o que é esta sensação.

Como me trato pelo SUS, demorou seis meses do diagnóstico clínico, até conseguir tratamento  com o especialista, o psiquiatra. Neste momento, eu que comecei essa hitória apenas com insônia e uma melancolia profunda, dessa vez colecionava neuroses (ansiedade, agorafobia [medo de sair de casa], TOC [transtorno obsessivo compulsivo], pânico…) e um desânimo ímpar de conformação ao meu estado, que nunca havia experimentado antes. Estava totalmente entregue à doença.

Além de uma medicação emergencial, o psiquiatra indicou tratamento psicológico que eu demorei muitos meses a conseguir pelo SUS, e somente agora as coisas começam a funcionar finalmente de modo multidisciplinar (clínico, psiquiatra, psicólogo, nutricionista, educador físico…), melhorar e fazer efeito positivo. Graças a Deus.

Afinal, eu que sou uma pessoa de fé, acredito que todos os que Ele colocou em meu caminho, dos médicos, enfermeiros e atendentes da farmácia, que tiveram cuidado e atenção comigo, aos amigos que espontaneamente oraram por mim, certamente foram por providência de Deus. Inclusive eu ter conseguido ter acesso à medicação e chegar a uma dosagem adequada em um ano. Poderia ser muito mais.

Um fato interessante é que desde a primeira inter consulta com clínico e psiquiatra, com muitas perguntas e respostas, junto com a indicação da psicoterapia, atividade física (que só agora, finalmente, consigo manter a frequência) e banhos de sol… Lembro que chorei muito, e comentei estar envergonhada, por não conseguir naquele momento estar levando uma vida normal. Por cair na depressão, mais uma vez. E dessa vez, muito pior.

Hoje, tantos meses depois, em nem consigo entender em que contexto poderia estar esta “vergonha” que na época senti. Seria algo como: o que os outros vão pensar? Vergonha em admitir-me mais uma vez frágil e incapaz, mesmo que momentaneamente? Sinceramente, não sei, não lembro e acho até bom.

Vergonha seria ter a possibilidade de cura, de mudar seu quadro clínico, e deixar essa chance passar.  E isso eu não fiz. Deixar a vida nos atropelar, chutar, nos deixar no chão e roubar anos e anos dela… Sem percebermos.

Ainda não estou 100%, mas vou ficar. Tem dias que as coisas são mais fáceis, noutros mais difíceis. Aceito e sigo tentando. Assim como aceito, de forma consciente, que se precisar tomar remedinhos ao longo de toda a minha vida para me manter bem e saudável, farei!

Soltar o verbo assim, não é fácil, mas sempre acreditei que se eu puder ajudar pelo menos uma pessoa me expondo de maneira tão aberta, minha experiência, mesmo amarga, já teria feito sentido.

Portanto, não sofra sozinho, peça ajuda, procure tratamento. Demorei seis meses para conseguir terminar este texto, mas ele está aqui…

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