Ainda sobre A Forma da Água

Como fã de ficção, de Guillermo del Toro e, consequentemente, do fantástico. Já vi e revi algumas vezes The Shape of Wather. E só se você assistiu A Forma da Água, leia este texto, senão assista e continue em outro momento deste ponto. Tem disponível no Telecine e no Now.

“Impossibilitado de perceber Sua forma, encontro você à minha volta. Sua presença me enche os olhos com Seu amor, acalma meu coração, porque Você está em todos os lugares.”

Esta poesia é recitada por Giles ao fim de tudo, enquanto ele conjectura o possível final de Elisa e da Criatura. E acho ela tão linda… Porque pode ser interpretada de formas diferentes. Para mim, ela é a síntese do filme, pois ultrapassa a intenção de uma história de amor incomum, ou da nossa incapacidade em reconhecer o que não corresponde à expectativa estereotipada que temos de tudo.

O filme é bastante crítico sobre o conceito do incomum ser inaceitável. E fiquei especialmente tocada, pois me sinto bem incomum e inaceitável às vezes… E apesar de muitos momentos de brutalidade, a obra me marcou muito mais pelo amor e amizade.

Um comentário à parte… Recentemente assisti via Netflix, um filme sobre Mary Shelley, é uma alegoria (real ou fictícia, não sei bem) sobre o que levou uma jovem mulher de 18 anos, no final do século XIX, a escrever uma das maiores obras de ficção e terror, excepcionalmente reconhecidas da literatura mundial. Sem spoiler. Quem gosta do gênero drama/biografia, assista. Indico.

Volto a Del Toro, e ao que leva este homem a nos conduzir por alegorias tão fantásticas para de maneira lírica nos levar à emoção através da reflexão? Tantas que por vezes até nos confundem… No filme, tudo o que é ilustrado nos anos 60, bem valeria para os dias de hoje. Continuamos hipócritas.

O filme nos leva a rever nossos julgamentos de valor. Há tantos conceitos e preconceitos arraigados em nós que sequer percebemos ou entendemos como tal…

O que a princípio parece uma crítica à passividade de Elisa e sua rotina entediante (até no ato de prazer solitário com tempo cronometrado), no fim tem uma função bem inclusiva, a descoberta do prazer e amor a si mesmo, seja como for.

E todo esse extremamente comum, mas aparentemente ignorado, negligenciado pela maioria das pessoas. Inclusive por Elisa, que apenas não se expressa… Pela voz! Vai ao longo do filme se mostrando, e sendo desnudado, mostrado, um a um estes conceitos.

Há o ilustrador gay e idoso. Obsoleto em seu trabalho, em seu espaço na sociedade, rejeitado em seu desejo incomum. Que tem como amiga uma mulher que o ouve, mas não fala. Solitário, mas aparentemente conformado com sua vida infeliz.

Ou, também vemos a crítica ao preconceito racial. Onde o dinheiro do negro vale para comprar, mas não para usufruir do pasteurizado ambiente da franquia de tortas (de péssimo sabor, aliás, mas de conceito “moderno”). Puro preconceito de raça e orientação sexual, afinal uma vez que o atendente descobre que Giles é gay, diz que não é mais bem vindo ao local.

Há também a patética cena, quando o agente “malvado” faz um comentário sobre a Criatura. Afirmando ser impossível que algo como “aquilo” pode ser consiferado imagem e semelhança de Deus. E diz ser mais provável que Deus pareça com eles (ele mesmo, a muda e orfã Elisa e a negra Dalila), mas logo retifica. Deve parecer mais com ele, um branco hipócrita, que negligencia as faxineiras, por seu trabalho, raça e deficiência (ainda que por Elisa, ele nutra um desejo pervertido).

Gosto quando o espião russo, que poderia ser visto como o bandido, é retratado como o verdadeiro homem de bem, patriota, que serve e respeita seu país, tendo orgulho do nome (Dimitri), e demonstra mais compaixão e humanidade que os ditos, “mocinhos”. Um contrasenso. Pena que nem seu próprio povo reconhece seu esforço.

E pra finalizar, o absurdo, o bizarro, o incomum… O final (?) com chave de ouro relembrado por Giles, um eterno romântico, sobre o amor de uma imperfeita bela, não tão bela, e de uma Criatura, estranha, mas que era um Deus.

Lindo!

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