Quando um bichinho morre | Texto de Alessandro Martins

Antes de postar o texto do Alessandro martins, quero lembrá-los… O Alessandro escreve por prazer, mas este prazer envolve um custo de tempo, pesquisa, dedicação e inspiração. Ao final de seus textos ele costuma colocar um lembrete, das maneiras possíveis de continuar esse trabalho que nos entretém, faz refletir, rir, chorar, sonhar… Achei válido colocar este lembrete no início, ao invéns das minhas considerações, pois acho que os textos do cara fazem diferença.

Marley_e_Eu-Despedida

Despedida – Cena do filme Marley e Eu

Trotski morreu.

É um dos gatos de minhas duas amigas.

Confesso que não sou dos que ficam sentidos quando um animal morre, mesmo se tratando de um animal do meu convívio e que vi crescer, como foi o caso da Suzi em 2014.

Chamamos o veterinário para dar cabo do sofrimento dela.

Dei-lhe um último pedaço de linguiça, que comeu com voracidade como se fosse viver não apenas os próximos 5 minutos, mas os próximos 50 anos.

Fiquei lhe fazendo carinho até o último minuto, sem lágrimas e com calma.

Penso que, quando vamos morrer, precisamos de pessoas calmas e carinhosas por perto e não desesperadas.

E, como não sei se estarei pronto para dar isso às pessoas que amo, que seja: dei à cachorra da família. (sei lá… acho que consegui dar isso a meu pai quando comecei a entender a pontinha do iceberg da morte)

Enfim, não me comovi muito. Não fiquei sentido. Mas isso não quer dizer que não senti, na ocasião.

O fato é que as minhas amigas sentiram a morte do gato. E até fizeram uma cerimônia de despedida.

Então, por elas, estou pensando na morte.

Em todas as mortes que já testemunhei.

Esta inclusive, a do gato Trotski. Morte que nelas, não no gato, testemunho.

A morte sempre é testemunhada de forma mais marcante não no morto, mas nos que estão em torno dele.

E, assim, também penso em todas as mortes que testemunharei ainda.

Morrer faz parte de viver, mas, antes disso, ver morrer também faz.

A morte da Suzi, em 2014, não me magoou nada. Até foi um alívio. Fiquei tranquilo.

Mas sinto que os carinhos que meu pai fez nela e os que a minha mãe fez e o modo como ela foi por essas duas pessoas cuidada também morriam fisicamente e definitivamente naquela hora.

E passavam a ser unicamente etéreos, material de memória.

Minhas próprias mãos que a tocaram, naquele momento, se tornaram menos sólidas do que antes eram; como se o tempo, representado pela morte, soprasse as camadas de materialidade.

A morte do outro ser, nos desfaz um pouco, como uma rocha – ilusoriamente tão sólida – que se esboroa sob o vento dos milênios.

O testemunho físico da pele e dos pelos dos animais de nossa passagem pela vida deles, morrem com eles em silêncio.

E, assim, uma parte de nós também morre.

E, como toda morte, não choramos pelo morto, mas por nós mesmos, por nossa própria morte, pela parcial de agora e pela definitiva do futuro. É por nós que são as celebrações, os réquiens, os velórios, os funerais, as lápides. Pela nossa morte.

Não a individual, mas a de todos, inevitável e necessária.

Texto: Alessandro Martins / Parte integrante da Newsletter Íntimo e Careca

Este não é o primeiro texto do Alessandro Martins, por aqui, não é a primeira vez que ele é citado, certamente não será a última.

Compartilho os textos do Alessandro, pois ele tem a fórmula mágica (que eu não tenho) de abordar com simplicidade, e também com alguma crueza (não para todos), temas incomentáveis. É difícil ser simples, objetivo e tão íntimo em uma simples carta. Ele consegue.

Quem me conhece sabe que a morte é um tabu para mim, cada dia menos, mas ainda é um tabu. E exatamente pelo comentário que ele faz ao final do texto. O lamento não é, necessariamente, pelo morto, mas pela morte. “Não a individual, mas a de todos, inevitável e necessária.”

Essa certeza incomoda. Por quê? Jamais saberei, mas… Vale a reflexão.

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A vida é uma biografia não autorizada

“Por isso parei de falar de livros e passei a falar da vida” – Alessandro Wainer / Autor da Newsletter: Íntimos e Carecas

  • Para ler o texto sobre o trecho mencionado, clique aqui.
  • Para assinar a newsletter Íntimos e Carecas, de Alessandro Wainer, clique aqui

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E eu, que tantas vezes me escondi das pessoas em minhas citações literárias, arrotando uma suposta erudição. Me afastava do outro com essa arrogância, muito mais do que os aproximava com o conhecimento.

(Sim, por muitos anos meus verdadeiros amigos foram os livros, por timidez ou medo da realidade, só sei que estes raras vezes me decepcionaram.)

Como o Alessandro, também demorei a “aprender” a ler de verdade, a saborear leituras, a degustar palavras e, sobretudo a ter real prazer pelo que foi lido.

Hoje leio para mim (e só para mim) o que gosto, o que interessa, o que me traz curiosidade… E leio muito menos do que poderia, e com muito mais vontade do que imaginaria.

É como ler, além do papel, a vida e as pessoas. Leio, o que leio, porque sinto prazer com isso. Vivo, como vivo, porque sou a autora e protagonista da minha história.

(Taí, talvez este seja o melhor motivo. Perceber que somos autores das nossas vidas.)

FoursCueca | A rede social das roupas de baixo

imagem de bruna camargo no flickr

Romance is having the flu. / imagem: Bruna Camargo, no Flickr

Eu ri quando li a mais nova do Alessandro Martins. Não bastasse o Livros e Afins, o Iniciante na Bolsa e a newsletter Íntimo e Careca, que emociona meus domingos pela manhã, ele vem com o FoursCueca.

FoursCueca (que bem poderia ser FoursCalcinha também) é uma rede social que  está por dentro (ooooops) de tudo o que rola (rola? oooooooops[2x]) sobre as roupas íntimas da galera.

Com lançamento previsto para o começo de abril, o site, cujo twitter já está bombando, promete ser o ponto de encontro de todas as cuecas e calcinhas de plantão.

E uma pergunta que não quer calar: pra quê? Mas… Como sou curiosa, já fiz minha pré inscrição.

(Deixa ver se as minhas estão apresentáveis, sabe como é… )


Photo Credit: bruna camargo via Compfight cc

Ser importante

Clips "importante" - image by las - initially on flickr

A newsletter do queridíssimo Alessandro Martins, Íntimo e Careca, teve seu segundo disparo. Nela, o responsável por blogs e tumblrs que fazem parte do meu dia a dia (como o Livros e Afins e o Casas Pequenas), através de uma narrativa gostosa, dá um toque bem pessoal à difusão de links interessantes (mesmo os já conhecidos) e contação de causos pessoais.

  • Super indico a assinatura do Íntimo e Careca (clique aqui), a newsletter do Alessandro Martins.

(Eu que conheço a voz do Alessandro, aquele gostoso sotaque paranaense, em alguns momentos tenho a nítida impressão que ele está contando aqueles causos para mim. )

newsletter alessandro martins

É… Sou bobinha! Este texto me pegou de jeito e fez que eu me sentisse importante, como se ele me confidenciasse algo. Aliás, ser importante, é uma expressão que tem me feito pensar desde que assisti o Eu Maior, e quando li o Íntimo e Careca esta manhã, tive uma sensação de déjà vu.

Em seu texto Menos Celebridade, o Alê faz uma crítica à “cultura da celebridade”, a essa necessidade absurda que tantos se esforçam e sofrem para serem importantes para grandes massas. Ele simplesmente decidiu que não quer, não precisa, ser importante para muitos e conta isso de um modo bem Alessandro Martins de ser.

Bom, quem me conhece sabe que apesar de ser uma escrevinhadeira contumaz, sou antissocial, curto ser. E há muito já entendi que não preciso ser importante para muitos. E sou muito feliz por ser importante àqueles que me importam.

No mais, vou vivendo! Importante para uns, irrelevante para outros… Vou vivendo.

importante 
im.por.tan.te
adj (lat importante1 Que tem importância. 2 Que não se pode esquecer ou deixar de atender. 3 Digno de apreço, de estima, de consideração. 4 Que tem grandes créditos, que exerce notável influência. 5 Que tem muito valor ou preço notável. 6 Útil, necessário. 7 Enfatuado. sm O que há de mais interessante, de mais útil, de mais proveitoso numa pessoa ou coisa; o essencial.


Photo Credit: las – initially via Compfight cc