Carta de um filho intersexo ao seu pai

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Intersexo / Imagem: Carol Rossetti

Carta ao Pai

Daqui a pouco você completa (…) anos. Alguns minutos antes disso queria te falar umas coisas. Primeiro que te desejo uma vida boa e feliz, cuidando das suas casinhas, das suas reformas e construções . Desejo que vc encontre paz e uma vida tranquila que toda velhice merece.

Em segundo lugar , Eu queria dizer que o plano não deu certo. Você estava sobre pressão e naquele momento o médico era o Deus, sem dúvida Eu faria o que vocês fizeram na época. Seguindo as orientações médicas, você e a mãe guardaram um segredo que poderia mudar a minha vida, mas seu medo de minha reação fez com que isso fosse protelado, mas não foi justo, pois o que poderia me ajudar a me reconhecer melhor na vida ficou guardado nos recônditos das suas consciências, talvez torcendo pra que Eu nunca perguntasse. As bocas que fecharam, podem ate ter soltado uma coisa aqui e ali e eu inocente não percebi, mas um deslize foi cometido.

A carta pedida pela mãe ao hospital chegou às minhas mãos por acaso do destino revelando o que eu sou. Descobri que a mutilação genital consentida fez com que meu sexo biologico completo -apesar de pequeno/ fosse retirado e e em seu lugar um novo fosse colocado, mas identidade de gênero não se aprende -se é – e nesse sentido meu corpo imerso na confusão e desesperança, começasse a resgatar o que me foi tirado brutalmente e assumido numa nova forma.

Pai, Eu Sou Homem e de homem pra homem quero te dizer mesmo que com dor, obrigado. Eu não aceito ter sido convidado a pensar em vocês, nos meus parentes, por causa do evangelho que vocês pregaram. Essa dor ainda está alojada em mim, a dor de ser preterido como sou em favor de uma religião e uma aparência. Além disso, por um pensamento violento de que ao ser ameaçado de espancamento pelo próprio irmão , ouvir que se Eu fiz por merecer você não pode fazer nada.

Dói ouvir tudo isso, não sei quando a dor que vocês causaram pela liberdade de ser Eu será sanada. Sei que não posso mudar a cabeça de vocês, mas mesmo distante Eu espero um dia ser recebido como Sou e mesmo que isso não for possível saiba que tem meu respeito como meu genitor. Imagino que vcs sofreram em todo processo, Eu muito mais.

O estrago foi feito, me sentia estranha, distante e que nunca satisfazia. Eu ouvia que tinha que aceitar o que era, mas como aceitar algo que não conseguia se definir. Foram 33 anos de muita dor e muita lágrima, sofri anos de psicólogos em psicólogo quando a resposta que eu precisava estava na sua mão: Sim, Eu Sou Intersexo. E é aí que se revela o meu agradecimento: ganhei um objetivo de vida, lutar pelas crianças intersexo brasileiras que todos os dias são mutiladas nos hospitais deste país, algo que farei até o último dia da minha vida.

Toda brincadeira tem um fundo de verdade, ouvi que era adotada ou filha de fulano (a), não sei se você falava isso por culpa , mas junto a isso sempre me marcou tb perceber o quão pouco você falava, mas quando falava esperava coisas como essas e outras mais. Tal como minha profissão não dá dinheiro , Eu gosto de estudar e sei que preciso fazer outras coisas pra sobreviver. Me tornei cientista social (sonhava na adolescência em ser aqueles cientistas de filme) sei que não ficarei rico , mas sonho em um dia ser um acadêmico respeitado, tendo que o que comer e um teto onde ficar e pagar as contas já é o suficiente pra mim, alem disso com amigos a vida ganha leveza e companhia né?

Eu precisava te dizer que você não mesmo não amando o que sou, reconheço seu esforço para me encaixar em algo que nunca fui, mas agora Eu sou e posso ser sem as interferências de chatos e chates de plantão. Desejo que haja pais mais conscientes que impeçam ou contem para a criança sobre todo processo, lembrando que a verdade liberta e empodera, mesmo demorando é possível.

Que a dor da minha alma seja impulso pra militar pela vida de crianças que passaram por cirurgias como a minha e que crianças e jovens intersexo respeitem e aguardem a formação da identidade de gênero para poderem manifestar o seu desejo quanto a operação de mudança de sexo. A vc pai desejo carinho, amor e muita coisa boa pra ti.

*Texto compartilhado no Facebook por Amiel Vieira, cientista social, pessoa intersexo, que nasceu homem e passou por processo normalizador – quando indivíduos  intersexo são adequados em um gênero,  no caso dele feminino – consentido pelos pais aos 9 meses de vida. Teve sua condição mantida em segredo e, só recentemente, teve acesso ao seu prontuário médico e procedimentos que foi submetido. Atualmente é militante de movimentos de Visibilidade Intersexo. O ativismo visa sobretudo o direito e respeito à formação da identidade de gênero, até que crianças e jovens intersexo tenham maturidade para opinar sobre o desejo, ou não, da operação de mudança de sexo.

*Se quiser conhecer o blog do Amiel acesse o link: indeterminade.wordpress.com

*Para melhor compreensão do tema Intersexo, indico a leitura completa da matéria Pessoas Intersexuais Revelam suas Vivências.

*A imagem do texto é da Ilustradora e Designer Carol Rossetti, e este é o link da sua Página Oficial Facebook (super indico seguí-la).

Blog do amiel: indeterminade.wordpress.com

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Perder o passo e deixar a vida passar

Photo Credit: Lia Guedes via Compfight cc

Photo Credit: Lia Guedes via Compfight cc

Em agosto de 2013, um ano de muitas mudanças em minha vida, recebi a visita da médica da família em nossa casa. E depois de muitas perguntas e algumas respostas.  A Doutora foi enfática: “Elizabeth, você está doente, posso ajudar de algumas maneiras, e vou, mas a principal não está em minhas mãos. Vou te encaminhar ao psiquiatra e ele vai tratá-la melhor do que eu. Você está em depressão, e se fosse algo simples, eu mesma poderia medicar, mas há algo mais que eu não ouso dar pitaco. Por hora, vou marcar nutricionista, indico atividade física, mais por conta da sua hipertensão, mas que também pode ajudá-la num tratamento antidepressivo…”

E a voz dela foi ficando distante, distante, distante… Eu já havia visto este filme, não uma, mas duas vezes, pelo menos. Não tinha mais medo das palavras psiquiatra, antidepressivos, pânico, mas senti naquele momento uma mistura de alívio (afinal, já pensava nos piores tipos de doença) e fracasso (como eu pude me deixar deprimir… mais uma vez). Àquela altura eu só conseguia me culpar sobre como não percebi a depressão voltar e se apossar de mim. Só quem já esteve no fundo do poço, em algum momento, sabe o que é esta sensação.

Como me trato pelo SUS, demorou seis meses do diagnóstico clínico, até conseguir tratamento  com o especialista, o psiquiatra. Neste momento, eu que comecei essa hitória apenas com insônia e uma melancolia profunda, dessa vez colecionava neuroses (ansiedade, agorafobia [medo de sair de casa], TOC [transtorno obsessivo compulsivo], pânico…) e um desânimo ímpar de conformação ao meu estado, que nunca havia experimentado antes. Estava totalmente entregue à doença.

Além de uma medicação emergencial, o psiquiatra indicou tratamento psicológico que eu demorei muitos meses a conseguir pelo SUS, e somente agora as coisas começam a funcionar finalmente de modo multidisciplinar (clínico, psiquiatra, psicólogo, nutricionista, educador físico…), melhorar e fazer efeito positivo. Graças a Deus.

Afinal, eu que sou uma pessoa de fé, acredito que todos os que Ele colocou em meu caminho, dos médicos, enfermeiros e atendentes da farmácia, que tiveram cuidado e atenção comigo, aos amigos que espontaneamente oraram por mim, certamente foram por providência de Deus. Inclusive eu ter conseguido ter acesso à medicação e chegar a uma dosagem adequada em um ano. Poderia ser muito mais.

Um fato interessante é que desde a primeira inter consulta com clínico e psiquiatra, com muitas perguntas e respostas, junto com a indicação da psicoterapia, atividade física (que só agora, finalmente, consigo manter a frequência) e banhos de sol… Lembro que chorei muito, e comentei estar envergonhada, por não conseguir naquele momento estar levando uma vida normal. Por cair na depressão, mais uma vez. E dessa vez, muito pior.

Hoje, tantos meses depois, em nem consigo entender em que contexto poderia estar esta “vergonha” que na época senti. Seria algo como: o que os outros vão pensar? Vergonha em admitir-me mais uma vez frágil e incapaz, mesmo que momentaneamente? Sinceramente, não sei, não lembro e acho até bom.

Vergonha seria ter a possibilidade de cura, de mudar seu quadro clínico, e deixar essa chance passar.  E isso eu não fiz. Deixar a vida nos atropelar, chutar, nos deixar no chão e roubar anos e anos dela… Sem percebermos.

Ainda não estou 100%, mas vou ficar. Tem dias que as coisas são mais fáceis, noutros mais difíceis. Aceito e sigo tentando. Assim como aceito, de forma consciente, que se precisar tomar remedinhos ao longo de toda a minha vida para me manter bem e saudável, farei!

Soltar o verbo assim, não é fácil, mas sempre acreditei que se eu puder ajudar pelo menos uma pessoa me expondo de maneira tão aberta, minha experiência, mesmo amarga, já teria feito sentido.

Portanto, não sofra sozinho, peça ajuda, procure tratamento. Demorei seis meses para conseguir terminar este texto, mas ele está aqui…

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Clandestinas

CLANDESTINAS - YouTube

Clandestinas – Documentário sobre aborto no Brasil. Mulheres contam sua experiência interrompendo uma gravidez. Atrizes interpretam relatos reais. Clique na imagem para assistir o vídeo no youtube.

Pouco falo do assunto, mas uma coisa é fato, independente de qualquer um de nós achar certo ou errado o aborto, apoiar ou não a legalização e descriminalização, depois da entrevista da Renata Corrêa ao Profissão Repórter ontem sobre o doc Clandestinas,  três sentimentos me tocaram e compartilho com vocês:

  • orgulho (de ver a ousadia de pessoas falando – sem julgamento moral – da descriminalização do aborto),
  • frustração (porque o enfoque durante o programa foi muito superficial devido à diversidade de opiniões sobre o mesmo assunto e o programa ter apelado mais para o tom emocional que para a reflexão do assunto em si)
  • curiosidade (tenho um respeito enorme a tudo que tem o dedo da Rê Corrêa no meio).

Bom, assisti e não me decepcionei. Com direção de Fadhia Salomão, roteiro de Renata Corrêa e produção de Babi Lopes o vídeo ao mesmo tempo choca e emociona. Vale assistir, refletir, continuar (ou não) com as próprias convicções, mas sobretudo repensar a questão do direito da mulher e posicionamento da saúde pública relacionada ao aborto.

  •  clique aqui para ler mais sobre este documentário triste e emocionante.

Independente da criminalização, o aborto é praticado diariamente, na maioria dos casos  sem as menores condições de higiene e saúde, levando a óbito ou traumatizando mulheres jovens que, por desespero ou convicção, recorreram à clandestinidade.

E antes que pensem que sou pela banalização do aborto. No way! Eis um ato que enche de culpa quem faz, e ao mesmo tempo, os bolsos de quem fez. Só quem sai ganhando é uem explora essa clandestinidade.

Vale pensar e refletir.


Ficha Técnica:

Documentário: Clandestinas – Documentário sobre aborto no Brasil.
Mulheres contam sua experiência interrompendo uma gravidez. Atrizes interpretam relatos reais.
Direção: Fadhia Salomão
Roteiro: Renata Corrêa
Produção: Babi Lopes
Apoio: SOF e IWHC

Você usa o SUS? | Sistema Único de Saúde

10 coisas sobre o SUS

Eu uso o SUS, e sim, ele não é perfeito, mas tem me servido dentro do possível.

Moro no RJ, tenho 3 consultas com clínico geral por ano, recebo os remédios na Clínica da Família, tenho consulta com nutricionista a cada 3 meses, exame preventivo ginecológico anual, palestras de métodos e controle de natalidade, 2 baterias de exames laboratoriais completos, inclusive os hormonais (T3, T4, TSH) e enzimas hepáticas (TGO, TGP e outros), já que há uns 13 anos atrás eu tive problemas hepáticos. Ultrassom, tratamento dentário básico, eletro e ecocardiograma.E isso porque citei apenas os serviços que fiz ou faço uso.

Graças a exames de prevenção descobri cedo e trato, de graça ou a preços bem populares, doenças como hipertensão, obesidade, esteatose hepática, ceratocone (que posso vir a precisar de transplante de córnea), depressão… Vivo em controle sempre.

Óbvio que algumas especialidades tem poucos profissionais, demoram um pouco mais que outras para receber atendimento, mas não sei se é porque pego no pé (sim, sou persistente e chata), eu consigo tudo o que preciso. Até mesmo médico em casa tive quando necessitei.

Realmente, a falta principal é de mais médicos especialistas (neurologistas, psiquiatras, ortopedistas, cardiologistas…) que deveriam ter em cada Clínica da Família ou Postos de Saúde. Hospitais com mais leitos e equipados… Ainda falta muita coisa, mas melhorou bem nos últimos dez anos.

Cobrar um SUS melhor é não só um direito, como necessário. Pagamos nossos impostos. No entanto, reconhecer tais melhorias não dói.

Prevenir é melhor que remediar, este deveria ser o lema, mas ainda não é. Como sou otimista, espero que um dia seja.

Visite o Portal da Saúdewww.portalsaude.saude.gov.br – e saia fuxicando sobre os seus direitos.

Antidepressivos x Libido

Libido x depressão / imagem Mysantropia no flickr

Importante! Algo muito comum no tratamento da depressão à base de medicamentos antidepresssivos e ansiolíticos é a queda da libido. Perde-se, ou limita-se a um mínimo o desejo pelo sexo ou até mesmo pela masturbação. Se você está nessa, entenda, seu parceiro(a) não ficou desinteressante de repente e nem você ficou frígido(a), a medicação para a depressão e ansiedade tem seu lado tarja preta também.

Alguns componentes químicos que compõem as famosas pílulas da felicidade (fluoxetinas, sertralinas, clomipraminas, clonazepans, bromazepans e muitos outros), estimulam agindo diretamente no nosso cérebro, em áreas que nos proporcionam prazer.

Ou seja, a gente não sorri à toa, foi estimulado a isso. Justamente os elementos químicos existentes nessas pilulinhas que nos induzem à cura, infelizmente também nos deixam num relax erótico que,  vai por mim, entrar de férias sexuais não é incomum. Justamente quando tudo o que a gente quer é voltar à vida normal…

No entanto, passado aquele primeiro momento que nos derruba na cama para depois levantar,  sempre me recusei a deixar minha libido escoar pelo ralo (estou em meu terceiro quadro depressivo dos últimos 20 anos, a gente sobrevive e aprende…) Felizmente sou um ser agraciado por um desejo sexual incomum e mesmo não sendo “a” gostosa, opções nunca me faltam e acabo chegando “lá”. Às vezes só e às vezes acompanhada.

Mais que conectar os cinco sentidos (por favor, se você, mesmo sem depressão tem problemas para chegar ao orgasmo, tente isso), estratégia que uso sempre, minha imaginação também precisa estar a mil para a coisa pegar no tranco… rs.

Percebi que tenho algumas artimanhas para não me tornar um ser assexuado (não que isso seja mau, se lhe convém) e resolvi compartilhar.

  • Literatura erótica de boa qualidade, com bom enredo, principalmente para as mulheres pode ajudar a entrar no clima aos poucos, assistir filmes onde o erotismo não é estrela,  mas mesmo em segundo plano acontece…. Também ajudam.
  • Com a libido em baixa, não dispense oportunidades. Se conseguir sair de casa (sim, pois se o quadro for de agorafobia, complica), sempre dê um jeito de estar junto de quem gosta, nem que seja para um carinho, mãos dadas durante um café, estar só, só ajuda a complicar..
  • Durante o banho, ou enquanto passa os cremes em seu corpo, mesmo só, acaricie-se. Se puder, faça isso diante do espelho (independente de kgs a mais ou a menos, pois depressão não mexe só com a nossa alma, mas o nosso corpo também) A carícia (mesmo a autocarícia) estimula a autoestima. Recuperar este sentimento é essencial no processo de cura. Gostar-se é fundamental.
  • No meu caso, que estou solteira, estar em contato com parceiros  sexuais  que já fazem parte da minha vida, sobretudo como amigos que conhecem um pouco da minha história, é importante. Se rolar algum curto circuito, se o lance não conectar, pagar “de samambaia”  (que só serve para a decoração) com quem te ama, respeita e tem carinho por você, é muito mais fácil.
  • Compartilhe fantasias sexuais com seu parceiro, ajudam muito. Nossa principal zona erógena é o cérebro.
  • Evite ousar coisas muito hardcore, apesar dessa ideia excitar muito e tal… No fim das contas, acaba sendo o feijão com arroz com quem se gosta, que  seduz e ajuda a um momento gostoso.

Queria poder ajudar mais, no entanto cada um é cada um.

Converse com o seu médico, caso a medicação esteja te transformando numa minhoca… rs. É possível mudar as doses aqui e ali, trocar remédios.

Apenas peço, por favor, não desistam do sexo, mesmo o sexo solitário (masturbação). Eis uma das atividades mais prazerosas e capazes de liberar tanta endorfina, que posso garantir, como o tempo e a melhora do quadro depressivo, o desejo volta.

Ainda bem!!!


Photo Credit: Mysantropia via Compfight cc

De antissocial a agorafóbica | Como reverter este quadro?

deiAgorafobia - image by ValetheKid on flickr
Sempre fui meio ostra, antissocial, estar em meio a muita gente é um stress enorme para mim, angustiante até (já fui quase pisoteada em um show ao ar livre ainda criança e não tenho medo de multidão, tenho  pânico). Ainda assim, a maioria das vezes disfarço bem esse meu medo de gente. Poucos acreditam, mas sou tímida. Nervosa, eu falo demais e as pessoas confundem meu desespero com extroversão.

O fato de eu não ingerir bebidas alcoólicas me segrega ainda mais. Reunir-me com os amigos na mesa de um bar é uma experiência inicialmente deliciosa, afinal eu os amo, mas à medida que o grau etílico das outras pessoas é aumentado eu começo a me sentir em um mundinho paralelo. Já que não consigo acompanhar a descontração, as gargalhadas e, sobretudo, deixar de morrer de vergonha alheia. É… Muitas vezes eu tive vergonha da postura dos meus amigos em uma mesa de bar. E rolava uma certa culpa, pois a estranha no ninho ali era eu.

Com o tempo fui descobrindo mecanismos  de melhor socialização. Em grupos pequenos me sinto mais acolhida (obrigada Cris Melo. Obrigada Lu, Lili, Carla e Charô. Amo vocês). Para ter encontros, prefiro matinés a noitadas,  cafés a bares, exposições a festas, passeios ao ar livre a shoppings… Estou aprendendo.

Ainda assim, mesmo com tantos macetes para melhor conviver com as pessoas, eventualmente minha ansiedade me dá uma rasteira. Em 2013 deprimi profundamente devido a enormes mudanças na minha vida em um curto espaço de tempo. Fiquei expert em desculpas para não sair de casa. E se não trabalhasse home office, teria ficado ainda pior.

Duas crises de pânico, uma delas que me congelou ao ponto de eu sequer saber como voltar pra casa, exigiu carinho de mãe ao telefone para me acalmar e conduzir de volta pra casa. Resultado? Uma quase agorafobia (transtorno ligado ao ataque de pânico que faz com que a pessoa evite situações que  ela imagina que podem colocá-la em risco, confinando-a, de certa forma) que me deixou quase quatro meses sem sair de casa. Entrei numa espiral descendente, cada vez mais profunda e estava difícil sair daquilo.

Tentei conseguir psiquiatra, psicólogo, mas SUS, sabe como é… E diante do meu quadro, em que sair de casa é um parto, já viu… Um dia consigo ajuda médica, melhoro sozinha, ou piro de vez, vai saber…

Um dia, uma frase da minha mãe me acordou de um transe. Ela disse que a porta do meu quarto não era uma muralha. Aquilo me incomodou, chorei, amuei, pois naquele mesmo dia, eu mesma havia escrito em um papel alguns comportamentos que queria mudar, porque e como faria isso. Sair do meu quarto era a primeira meta, interagir com meus familiares também. Outras metas maiores viriam depois e vieram. Desde aquele dia, voltei a passar algum tempo na sala, cozinha, quintal, acariciar meus cães, brincar com eles…

Quando me senti mais forte comecei a ir à frente da casa, a lugares próximos como o banco 24h aqui pertinho, à farmácia, até que um dia ousei um café com um amigo (ele sabe o quanto sou grata por ter insistido no convite, já que neguei algumas vezes). Foi estranho, foi dolorido, tive medo, achei que coisas terríveis pudessem me acontecer, mas… Fui! E nada de mau aconteceu. Ufa!

Desde então, pouco menos de um mês e meio, já saí quatro vezes, fui a duas exposições, reencontrei amigos queridos… Às vezes me sinto super forte e capaz de qualquer coisa. Noutras vezes ainda me retraio e não consigo sair de casa. Ainda tomo ansiolíticos, que me ajudam a ir adiante, mas minha intenção é aumentar as caminhadas, que promovem um grande bem estar, para largar os ansiolíticos de vez.

Enquanto isso vou tentando, a passinhos de bebê, dar o próximo passo, superar o novo limite… Começo o ano como um bebê de dois anos. De vez em quando buscando apoio nos meus bichos, nas pessoas próximas, ao mesmo tempo que tento dar meus passos mais seguros, independentes. O processo não é simples, é lento, uns dias consigo, noutros não… Quem sabe um dia ainda vou rir disso tudo.

Hoje não amanheci bem, quero sair, encontrar amigos em um quiosque na praia, mas me sinto paralizada. Olho para a cama e vejo a roupa arrumada, cuidei das unhas, modelei meus cachinhos… Penso neles, os meus amigos, no quanto quero lhes dar um abraço, mas… Só consigo pensar na aglomeração de pessoas, em um possível arrastão,  no risco de não ter grana para acalmar a fissura do bandido, na volta pra casa… Na mente de um ansioso, o quadro imaginado é sempre o pior possível.

E minha cabeça dói, minha pressão aumenta, enjoo… E taca um ansiolítico para dentro, e dá-lhe ficar lerda com o efeito. E de repente, tudo o que eu quero é dormir e esquecer  toda esta situação que só aconteceu no meu pensamento.

É o caminho é longo e só depende de mim… Baby steps, baby steps…

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Photo Credit: ValetheKid via Compfight cc